A Fantada não foi acidente: Quando a cor vem antes do Respeito
O episódio envolvendo o apresentador Vanderson Nascimento, da TV Bahia, durante a cobertura do Arrastão de Carnaval de Salvador, reacendeu um debate antigo e doloroso: a normalização da violência contra corpos negros, mesmo quando estes ocupam espaços de visibilidade, poder simbólico e reconhecimento profissional.
Durante uma transmissão ao vivo, Vanderson foi empurrado por um agente da Polícia Militar, cena que foi captada pelas câmeras da emissora. A transmissão chegou a ser interrompida, mas o áudio ainda registrava o jornalista tentando compreender o que havia acontecido enquanto exercia seu trabalho.
Posteriormente, Vanderson se manifestou nas redes sociais, afirmando estar bem fisicamente, mas classificando o ocorrido como “lamentável” e destacando que excessos não podem ser normalizados, mesmo em um cenário de festa popular como o Carnaval. O apresentador também informou ter recebido um pedido de desculpas do comandante-geral da PM.
Apesar do gesto institucional, o caso ultrapassa o âmbito individual e revela um problema estrutural.
“Antes de tudo, vem a raça”
A professora e pesquisadora Ilmara Cecília analisou o episódio sob uma perspectiva social e racial. Para ela, a agressão sofrida por Vanderson não pode ser tratada como um simples incidente isolado.
Segundo a professora, mesmo sendo um dos principais apresentadores do jornal de maior audiência da Bahia, Vanderson não foi reconhecido como profissional no exercício de sua função. “Adivinha o que foi visto antes de qualquer coisa? A raça”, pontua.
A reflexão levanta uma pergunta incômoda, mas necessária: quanto uma pessoa negra precisa trabalhar para ser respeitada? Nem o microfone, nem a transmissão ao vivo, nem a credibilidade construída ao longo dos anos foram suficientes para impedir a agressão.
Violência que se repete no Carnaval
Casos como esse não são inéditos. Durante o Carnaval de 2026, falas semelhantes às de Vanderson também foram feitas por artistas como Igor Kannário e Márcio Victor, que denunciaram abusos e excessos cometidos por agentes de segurança durante a festa.
São relatos que se acumulam ano após ano, reforçando a percepção de que, para parte da população, o Carnaval é sinônimo de lazer; para outra, é também um período de maior exposição à violência institucional.
Não é sobre a “gota d’água”, é sobre o balde cheio
A análise de Ilmara Cecília também chama atenção para o impacto psicológico acumulado dessas violências. Ela relembra o caso recente de um jovem negro, psicólogo, aprovado em um mestrado na Universidade Federal da Bahia, que tirou a própria vida após vivenciar mais um episódio de racismo.
“Não é sobre a gota d’água, é sobre o balde cheio que transborda”, afirma a professora. A violência cotidiana, muitas vezes naturalizada ou tratada com humor, deixa marcas profundas.
Não tem graça
Transformar a agressão sofrida por Vanderson em piada — como se fosse apenas “uma fantada” — é minimizar uma dor que tem cor, endereço e destino certo. Não há graça em um profissional ser violentado enquanto trabalha. Não há graça em corpos negros serem tratados como suspeitos, mesmo quando estão apenas exercendo sua função ou curtindo a festa.
O caso de Vanderson Nascimento escancara uma realidade incômoda: nem a fama, nem o reconhecimento, nem o trabalho duro protegem completamente o corpo negro da violência.
Enquanto episódios como esse continuarem se repetindo, a pergunta permanece ecoando nas ruas de Salvador e do Brasil: até quando?



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